O espresso do bolso quente

Com o perdão do trocadilho, o título deste post é apropriado. Este blog é um passatempo de alguém que gosta de falar de tecnologia, mas 80% da nerdaiada que eu conheço bebe café e, destes, pelo menos metade prefere espresso. Só que, como a maioria de nós não tem muita habilidade para preparar café usando máquina manual sem fazer uma sujeira medonha, alguns apelam para os sistemas fechados, de sachê ou cápsulas. Tem os que usam porque acham as cápsulas bonitinhas, mas a gente não está aqui para julgar ninguém. Finalmente, tem os que não moram sozinhos e o sistema fechado é a melhor forma de ter espresso em casa sem ter o pescoço espremido por conta da bagunça.

O problema de usar uma máquina de sistema fechado é que, quase sempre, ele é proprietário. Funciona como uma impressora: você compra uma máquina de determinado fabricante e só pode usar nela o suprimento compatível. Frequentemente, as máquinas são vendidas com algum nível de subsídio visando a adesão de novos consumidores e esperando receber esse investimento de volta no médio/longo prazo, sob a forma de venda de café. Óbvio que essa parte do subsídio não se aplica ao mercado brasileiro. Aqui, nenhuma máquina dessas é realmente acessível. Existem modelos abaixo de trezentos reais, mas são manuais com porta filtro. A maioria é, ao menos, competente, mas também requer um procedimento semelhante ao que o barista faz na cafeteria. Só que as empresas que vendem sistemas fechados andam abusando demais do nosso bolso, fazendo o preparo manual parecer interessante novamente.

Eu comprei, há pouco menos de um ano, uma máquina Nespresso Pixie. Ela pode ser encontrada sob fabricação de alguns fabricantes, como DeLonghi, Magimix ou Krups, mas são basicamente iguais, porque seguem a especificação estética da Nestlé. A minha é uma Krups, e difere, por exemplo, da DeLonghi apenas no desenho dos painéis laterais. Ela tem a vantagem de ser um modelo bem compacto e cabe, com um estojo de cápsulas grande, em cima de um microondas pequeno. Perfeita para quem não tem muito espaço. O que me deixou insatisfeito foi comprar suprimentos. A Nespresso pratica, atualmente, o preço de R$19 para uma caixa de dez cápsulas do Ristretto. Na Espanha, já com 7% de IVA (imposto sobre valor agregado) embutidos, custa 2,50 euros. Isto significa que, sem impostos, a mesma caixa custa 2,34 euros, ou aproximados R$5,90 segundo o câmbio do dia. Trabalhando com os 2,50 praticados lá fora, em um cálculo de leigo, cheguei ao seguinte: Sendo que o imposto de importação é de 60%, e o ICMS de São Paulo é de 18%, uma caixa que custa 2,50 euros ou 6,30 reais deveria ser vendida a R$12,29, pouco mais que 2/3 do preço praticado pela Nestlé no Brasil. Se computado o ICMS interestadual, ela poderia me custar mais 7%, ou por volta de R$13,50. Quando questionados, representantes da empresa sempre alegam que o preço elevado se deve aos encargos tributários. Na dúvida, culpe o governo. Você pode nem saber porque está batendo, mas ele sabe porque está apanhando.

Brasileiro é rico. Cada vez que entro em contato com gente de fora, é a impressão que eles passam sobre nós. Isto é, quando sabem a realidade dos preços praticados pelas empresas que também operam em seus países natais. Um carro pode chegar a custar, aqui, o dobro do que custa em um país da União Européia, e isso não quer dizer que lá isso seja barato. Mas o assunto agora é o café nosso de cada dia, e a Nestlé me levando a crer que vale a pena economizar um pouco mais e ser roubado por outra multinacional, como a Philips, detentora da marca Saeco. Cuja superautomática XSmall custa, no Brasil, uns 1600 reais, enquanto, lá fora, pode ser comprada por menos de 400 euros. O dobro do preço, mas a economia na manutenção pode compensar.

Se a Nestlé quiser a palavra, eu faço um post com a explicação deles para os preços estilo automóvel alemão premium, “sou caro pra ser exclusivo”. Não é que eu queira realmente fazer isso, mas é direito de resposta. Agora, que explicação eles têm pra oferecer por tratar o consumidor brasileiro como panaca, tentando colocar panos quentes com “frete gratuito” (para um produto que tem menos de 60g por caixa!) ou oferecer “descontos” (aspas em nome da ironia) na compra casada de caixas de madeira ou potes de acrílico para as cápsulas, isso foge à minha imaginação. Gostaria muito é que eles honrassem as próprias calças e expusessem sua tabela de recolhimento de tributos para provar que não estão cometendo usura.

Informações estas que deverão ser entregues pelo coelho da páscoa cujos ovos eles embalam e vendem todos os anos, desde a quaresma. Só pode.

Os tentáculos do Google

Na semana passada, a exemplo de outros serviços online, o valor de mercado do Evernote atingiu a cifra de um bilhão de dólares. Hoje, o Google anunciou o Drive, seu serviço de armazenamento online. Embora as duas coisas aparentem não ter relação, não é bem assim que a banda toca. E o mesmo motivo dessa relação ser algo indelével é o que a torna preocupante.

Se você é profissional liberal, criador de conteúdo, analista de dados, ou simplesmente trabalha diretamente com computadores e/ou internet, você muito provavelmente nem nega que depende de computadores e, mais provavelmente ainda, surta quando fica sem conexão com a rede. A onda de serviços “na nuvem”, os discos virtuais, o Office 365, Google Docs, tudo isso está alçando o computador à condição de terminal burro de luxo. Não, eu nunca usei terminais burros, mas conheço gente velha, do tempo em que trote cruel era embaralhar os cartões perfurados dos calouros. Acredito que o equivalente disso seria trocar a senha do GMail do infeliz quando ele esquecesse o navegador logado. Apagar arquivos se o disco virtual oferecer serviço de recuperar backup também dá um bom susto. Não, você não leu isso aqui. Se feder, é problema seu.

Qual é, afinal, a relação do Drive, um disco virtual, com o Evernote? O Google. Se estivéssemos falando do Instagram, seria o Facebook. Empresas que vivem de vender informação. Tanto o Google quanto o Facebook usam seus dados e hábitos para lhe oferecer coisas – e sabe mais lá o que. O Google, quando unificou seus termos de serviço e a política de privacidade, definiu:

Informações que partilhamos
Não partilhamos informações pessoais com empresas, organizações e indivíduos externos à Google, exceto nas seguintes circunstâncias:
(…)
  • Para processamento externo
    Fornecemos informações pessoais às nossas filiais ou outras empresas ou pessoas fidedignas para efeitos de processamento, com base nas nossas instruções e em conformidade com a nossa Política de Privacidade e quaisquer outras medidas de segurança e confidencialidade aplicáveis.

Baseado, claro, nos critérios deles.

A política de privacidade mais recente do Evernote, em vigor desde novembro de 2010, dá à empresa o direito de coletar e usar (dentro do escopo da atividade deles) alguns dados seus, mas nenhum dos seus dados. Ou seja, eles não podem usar nada do que você guarda em seus cadernos para o que quer que seja. E isso é importante, porque pode ter conteúdo sensível ali, trabalho em andamento, esse tipo de coisa. Como o Google Drive, o Evernote (na versão paga) oferece serviço de reconhecimento de caracteres em imagens e PDFs contendo imagens, de modo que você pode pesquisar por palavra-chave. Mas seu trabalho não vira isca de anunciante, e isso é importante.

Não se trata de demonizar o Google. É uma empresa, não uma caridade, e é o negócio deles. Use ou não use, é problema seu. Mas é importante ter isso em mente antes de colocar algo sensível ali dentro. Pelo menos, use um disco virtual encriptado, como o TrueCrypt, se não houver jeito. Bom, isso depois do Drive aceitar qualquer arquivo, porque, diferente dos concorrentes (Dropbox, Skydrive, Sugarsync, etc), ele só aceita certos tipos. São muitos, mas só aqueles, possivelmente os que o Google está preparado para processar e escrutinar atrás de algo que lhes valha. O famoso serviço de indexação da empresa é fantástico, sim, mas veja isso como a malha de satélites GPS: o número de satélites que o governo dos EUA tornou disponível para uso público não é, nem de perto, o que está disponível para uso militar.

Aí, fica pra cada um pensar. Se o Evernote fosse comprado por uma empresa que vive dos seus dados, você ainda o usaria? Eu uso, acho fantástico e faço propaganda de graça deles apenas porque o serviço é bom, mas, com a notícia da Veja sobre seu valor de mercado, se ele for comprado por um Google ou um Facebook da vida, apago minha conta no mesmo dia. Claro, os termos de serviço não mudariam, não de saída. Mas o Skype era gratis, agora é “gratis”. O dono influencia, mesmo que diga que não. E eu não deixaria meu trabalho na mão de uma empresa cujo modelo de negócio envolve espiar os dados dos clientes para lhes vender coisas.