Microsoft: Tem, mas acabou

A Microsoft iniciou, há um bom par de anos, um plano ambicioso de galgar posições no mercado de dispositivos móveis que envolveu posicionar Trojan Stephen Elop como CEO da Nokia, para quebrar as pernas dos finlandeses além do recuperável e comprar barato a parte que lhe interessava do que já foi a maior empresa de telecomunicações do planeta. O Windows Phone 8 e o Windows 8 são parte importante desse esforço, que visa a obter uma integração parecida com o que a Apple fez com seus dispositivos (embora o Skydrive funcione melhor que o iCloud) em toda sua plataforma, Xbox incluso.

 O problema é que Redmond quer ganhar na loteria, mas não quer comprar o bilhete. Investimentos como o que a Blackberry fez para atrair desenvolvedores simplesmente não são vistos em escala e coisas como o aplicativo Kindle para a plataforma são um claro resultado disso. Nem entro no mérito das deficiências do Windows Phone 8, porque eles realmente vêm consertando algumas coisas ao longo das atualizações e não quero falar disso sem antes ver o que realmente traz Papai Noel a GDR3.

Só que certas coisas são inaceitáveis.

Desde setembro, as operadoras de cartão de crédito brasileiras pararam de aceitar transações em moeda nacional no exterior. Como o assunto aqui é a postura de uma empresa de tecnologia, não vou iniciar discussão sobre essa medida. Digo, apenas, que certas coisas dão a impressão de que os órgãos estatais não zelam exatamente pelo interesse público, mas pelo interesse púbico. E nem nos pagam um jantar, antes.

O grande problema aqui, na verdade, é a Microsoft. Em MS Commerce, o lugar onde gerenciamos nossas opções de pagamento para as lojas da empresa (Xbox, Windows e Windows Phone), há um aviso sobre a moeda utilizada nas transações. Quando clicado, ele abre uma tela com a explicação abaixo:

Em dólar, pero no mucho

Vejam que ela avisa que seu banco pode recusar algumas transações e que eles começaram a converter automaticamente para dólar todas as transações exibidas em Reais. Só que isso não é o que acontece. Tive meu cartão substituído e, portanto precisei atualizar meus dados financeiros nessa plataforma Commerce da MS. Ao tentar validar o cartão novo, recebo um erro que parece uma daquelas palavras de frase inteira que alemães usam, só que escrito em hexadecimais. A MS avisa no erro que ele veio da instituição financeira. Liguei, nada satisfeito, para meu banco e, depois de conseguir falar com alguém que não foi treinado a apenas repetir o que está na tela, cheguei, junto com essa senhorita, à conclusão de que a validação está sendo negada porque, no momento em que ela é solicitada, a Microsoft tenta lançar a compra que não conseguiu cobrar (meu cartão atrasou e entrou em bloqueio de segurança, deixando saldo em aberto). Em reais.

Deixai toda esperança, vós que entrais!

O suporte da Microsoft é ruim. Ruim como voltar para 2000 e rodar Windows ME num PC com placa mãe SiS. Não, pior. Ruim como se ele, o próprio suporte, rodasse sobre WinME. Não há meios de frisar suficientemente quão ruim é o suporte da MS no Brasil. É algo como o driver de rede sem fio do Mac OS 10.8.

Pra início de conversa, quando você clica em “contactar suporte” na plataforma Commerce e seleciona os motivos, a janela para onde é direcionado diz que há atendimento via chat e telefone 24×7. Tem, mas acabou. Funciona no horário comercial e é bem ruinzinho. O telefone, não. O chat. O operador me deu o telefone (o da tela de suporte acabou, mesmo) e eu liguei, porque ele assumiu que não poderia me ajudar com nada, embora seu colega tenha expressado estranhamento por ele não ter me informado nada sobre a justificativa do erro. Que, segundo ele, tinha unicamente a ver com o bloqueio de transações no exterior. Não em reais. Ele falou transações, indiscriminadamente.

Em um contato feito esta tarde por telefone, a atendente tentou desmentir a informação obtida junto ao meu banco e insistiu que a Microsoft não está conseguindo efetuar lançamentos para os clientes brasileiros, chegando a dizer que há clientes perdendo assinaturas por não conseguir renová-las Quando confrontada com o fato de que, a despeito do que informa, a Microsoft está, de fato, lançando as transações em Reais e, segundo meu banco, esta é a razão da recusa, ela basicamente perdeu a linha e começou a repetir tudo, como um disco arranhado.

Então, a Microsoft mostra a que veio. A nada. Até agora, pelo menos, considerando que limita-se a dizer que há um erro e que seus clientes não podem fazer nada que envolva pagamentos, mas desmente qualquer informação externa, não elucida coisa alguma, não dá prazo. O determinismo microsoftiano. É assim porque é assim e não vão lhe dizer nada de realmente útil. Seus atendentes são tão úteis aos seus clientes quanto um CD da AOL. Ou nem isso. O CD da AOL dá um reloginho bacana.

Atualização: Em 21/11/2013 a Microsoft acordou para a vida e consertou o problema na plataforma Commerce. Todas as transações agora são cobradas em dólar e, além de relatos de outros usuários, eu também consegui, finalmente, associar o cartão à conta.

A oportunidade perdida

Você sabe o que são “serviços avançados de internet”? Nem eu, mas descobri em janeiro esse lançamento na minha fatura de telefone. Aparentemente, é um pacote contendo firewall e outras coisas que a maior parte de nós já tem no computador e no roteador de casa. Ainda assim, ele foi incluído à revelia em minha assinatura e, desde lá, vinha tentando ao menos sustar a cobrança. Lá pra julho, eu descobri (porque eles, convenientemente, não informam!) que podia solicitar a correção pela plataforma do cliente no site. O atendimento da GVT costuma ser rápido, e não foi diferente. Em parte.

A minha primeira mensagem pelo portal foi na noite de 03 de julho. Menos de 48 horas depois, veio uma resposta, reconhecendo o erro desde maio de 2010 até julho de 2012. Ofereceram devolução simples dos valores cobrados indevidamente. Por liberalidade da empresa. Ótimo! Não… espera. Liberalidade é coisa de praia de nudismo, meu rapaz. A empresa que mudou sua identidade visual para incluir a palavra Respeito tinha acabado de dar uma de joão-sem-braço pra cima de um cliente. Vai não, pode não, o CDC deixa não.

Respondi a esse contato logo na mesma tarde, deixando claro que liberalidade de… bem, as mentes sujas entenderão. Não vou colar o email que mandei pra eles, é meio longo. Mas deixei claro que o uso da palavra “liberalidade” era altamente inapropriado, já que eles não apenas estariam cumprindo com a obrigação de me ressarcir como ainda estariam fazendo aquilo pela metade. Em uma frase, sustentar mera liberalidade não isenta uma empresa de sua responsabilidade. Também avisei que estava disposto a sanear a questão inteiramente em diálogo com eles. Eu sou bacharel em Direito e tenho registro ativo na OAB, mas isso não significa que goste de ir a juízo. Detesto. Já estive dos dois lados do balcão e sei que ações inúteis são daninhas para todos os envolvidos, salvo quando protelar o inevitável é lucrativo. Mas a GVT respondeu bem a esse convite, na verdade. Mais ou menos.

Menos de vinte e quatro horas depois, recebi um lacônico “Em atenção ao seu e-mail, informamos que o ajuste em dobro sera crédito em suas proximas faturas.” Tudo certo, com um detalhe: crédito em faturas, quando você está recebendo daquele que lhe fornece o serviço, significa que, na verdade, eles estão lhe pagando a menor. Ora, se eles lucram lhe prestando um serviço e lhe restituem quantia na forma de abatimento naquele serviço, na melhor das hipóteses, estão reembolsando o percentual do lucro. Ademais, em lugar algum diz que eles podem impor a modalidade de restituição, e eu solicitei crédito em conta corrente. Toca responder o email, tudo isso pelo portal do cliente, reiterando a preferência por crédito na conta corrente e mandando meus dados bancários junto, embora, teoricamente, isso fosse desnecessário. A fatura é paga com débito automático, então eles sabem a conta.

Foi o último contato pelo portal do cliente. Eu teria aplausos para a GVT, mas ela tentou se esquivar de assumir a responsabilidade até quando aceita pagar o valor em dobro e corrigido, como manda o CDC. Ainda assim, seria uma novidade interessante, uma prestadora resolvendo pendências administrativamente com o cliente. A única outra vez que vi algo vagamente semelhante foi um convênio da Telemar com o TJBA chamado Teclamar, mas que não passa de um “receba e não bufe” aos clientes que estão à beira de ir a juízo. É que, como a Telemar (a Oi AINDA é Telemar, não esqueçam) é uma das maiores clientes do judiciário, você tinha duas opções: assinava um termo de não-litigância e aceitava seu direito pela metade, ou esperava cinco anos para ganhar a ação. A GVT reconheceu o débito e passou a questão para o financeiro. Louvável, ainda que tenham jogado o barro na parede de início e que o problema todo tenha surgido por conta de um outro barro que eles jogaram na parede e que, por descuido meu, colou.

O financeiro dessas empresas parece que ganha pra funcionar mal. Atrase além do limite e eles suspendem seus serviços. Cobre algo deles e espere sentado. O que aconteceu em seguida foi a minha fatura de agosto vir zerada. Eles ainda estavam no prazo que me haviam pedido num contato feito por telefone em 31 de julho, então eu não havia desconfiado até ver a fatura na caixa de correio. Abateram a fatura integralmente do crédito, a despeito do que já havia sido conversado. Três chamadas, uma à ouvidoria, resultaram em rigorosamente coisa alguma. Foi necessário enviar através do portal do cliente uma notificação extrajudicial, detalhando o ocorrido e incluindo valores, datas e números de protocolo, dando prazo para pagamento em conta corrente do valor restante da dívida. Não observados os termos, eu estava pronto para ir a juízo. Depois disso, eles pagaram. Na verdade, eu quase entrei com a ação, porque eles atrasaram dois dias além do prazo, mas alguns enroscos cotidianos me impediram de atualizar minha assinatura digital do TJBA a tempo.

Moral da história? NUNCA, de jeito nenhum, aceite que uma empresa que lhe deve use a expressão “mera liberalidade” para cumprir sua obrigação. Ela não aceitaria que você retribuisse a gentileza, acredite. E quanto à GVT? Ela perdeu uma excelente oportunidade de se destacar perante o consumidor. Eu poderia escrever uma história completamente diferente aqui, contando que um provável erro de sistema levou a uma cobrança indevida que ela se apressou em corrigir. As empresas precisam redescobrir o efeito que a opinião pública tem sobre suas vendas. Na verdade, elas sabem, mas fingem que vivem sem nós. Imagino o que um executivo delas faria se 30% da massa de clientes pedisse rescisão no mesmo dia. Abriria uma úlcera no duodeno, provavelmente. Mas eles preferem nos tratar com porquinhos de louça, à marretada, e nos ligando às oito da noite para empurrar o mesmo serviço que eu levei sete meses para arrancar da minha fatura. Vamos ver quanto tempo isso dura.

“O Salvador é INdiferente”

Quando a legislação de acessibilidade foi criada, sua função original sempre me pareceu a de suprir lacunas do art. 5º da Constituição Federal, no sentido de desigualar os desiguais para que todos tenham os mesmos direitos. Considerando isso, definiu-se que, em locais públicos ou privados abertos ao público, próximo ao acesso, devem ser demarcadas vagas para pessoas idosas e portadores de necessidades especiais. Isso é um pouco mais amplo que simplesmente pessoas com deficiência, atingindo qualquer pessoa a quem seja sofrido caminhar longas distâncias sem a ajuda de acessórios, como alguém que quebrou um pé, sofreu uma cirurgia ortopédica ou de outra natureza, uma pessoa transportando criança de colo. Não precisa ler a lei, o bom senso, quero crer, é suficiente.

Em Salvador, entretanto, as coisas funcionam de ponta-cabeça.  Não vou me alongar falando dos absurdos que a administração municipal pratica, como um meio-fio em frente ao Shopping Itaigara, separando duas pistas e cortando ao meio uma travessia de pedestres. Quase todo dia, idosos penam para atravessar aquele trecho. Vou me concentrar nos estabelecimentos privados com acesso público. Particularmente, vou falar um pouco sobre o Salvador Shopping, um dos empreendimentos do grupo JCPM em Salvador.

Antes de prosseguir, um esclarecimento: embora meu veículo esteja adaptado e devidamente identificado, não tenho nenhuma limitação física severa, nada além de uma coluna estropeada que dói de vez em quando e nunca estaciono em vagas reservadas se não estiver transportando titular do direito de uso delas. Todas as situações narradas a seguir, portanto, representam transtornos reais às pessoas que têm seus direitos violados, eu sou meramente um relator.

Inaugurado em maio de 2007 sem nenhuma cadeira de rodas disponível e alegando que isso foi devido ao atraso do fornecedor (mas sem a presença de espírito de alugar algumas para tapar o buraco), o Salvador Shopping tem um bom capital humano nas camadas inferiores de sua administração. Em cinco anos de operação, não me lembro de ter sido atendido com qualquer ponta de maus modos por algum dos funcionários fardados. Dito isto, nada, absolutamente nada do que é solicitado ou sugerido é sequer pensado pelas camadas gerenciais. Ou há uma absurda falta de respeito para com os clientes, que são aqueles que viabilizam o empreendimento que pagam seus salários, já que nenhuma das providências, nem as que representam cumprimento de lei federal ou municipal, foram adotadas até agora.

Minto. Uma vez, há algumas semanas, o Shopping começou uma campanha (falaremos de novo nela mais adiante) com cartazes de modelos saídos de alguma Getty Images da vida portando placas com textos pedindo respeito à preferência que é direito de idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Uma delas estava coberta por uma samambaia. Eu avisei, a samambaia saiu de lá. Minto de novo, fui eu quem livrou a vista da placa. Eles moveram o vaso de lugar depois disso.

Só que placa não fala. E, ainda que o pessoal do Salvador Shopping seja muito educado, não foi treinado para reagir à absurda falta de educação do ser humano. Ninguém quer ter o pé pisado, mas pisar não lhe dói a consciência. Nessa lógica, as poucas vezes em que vi um funcionário efetivamente tomar uma atitude, agiu de movimento próprio, e morrendo de medo de alguém ir lá na administração fazer queixa. Eu diria, pelas atitudes dos clientes e omissões da direção do estabelecimento, que seu medo era justificado. Nunca mais o vi por lá.

O Salvador passou por algumas reformas desde que abriu as portas. Duas menores, na zona de caixas automáticos que matou algumas vagas reservadas (que foram marcadas na fila em frente por alguém que, definitivamente, não estava ligando muito para o que foi pago para fazer) e na montagem do espaço onde funciona o SAC, na G2. Que também matou vagas e gerou um dos maiores ornitorrincos da vida prática que já vi: vagas reservadas num corredor sem saída e marcadas a 45º.

A terceira e maior reforma foi a ampliação, prevista desde a inauguração e que simplesmente ignorou a necessidade de mais elevadores que fossem até o terceiro piso. É um pouco difícil digerir uma decisão dessas quando ela só poderia vir acompanhada de uma política estrita de respeito ao acesso prioritário, não de meia dúzia de placas coladas com fita adesiva nas paredes. A mensagem vai chegando do horizonte, “não venham, não venham não, porque aqui não tem lugar para vocês.”

Claro que não tem. Uma solução, há muito tempo, foi a de fechar algumas (não todas) vagas reservadas, e só as para necessidades especiais (idosos, não), com correntes. Ignoro o motivo, mas a prática caiu em desuso. O fato é que você chega, num fim de semana ou mesmo no meio dela, e precisa ouvir que não tem vaga “porque o povo não respeita”. A segurança do estacionamento é contratada para que? Vigilância patrimonial apenas? Frequentemente, eu preciso estacionar em um lugar onde não é vaga demarcada, junto ao elevador, porque simplesmente não há uma vaga acessível livre. Até as zebras viram vagas, porque, na demarcação das novas, alguém teve a brilhante ideia de colocar duas zebras juntas. É, eu sei, acabei de falar nisso ali em cima, mas o negócio é absurdo. Uma barra de ferro entre elas resolveria o problema, mas ninguém pensa nisso. Canso de fotografar veículos estacionados irregularmente. E de nunca ver a administração tomar qualquer providência além de colocar um papel na minha porta dizendo que estacionei em um local irregular. Botei um papel por dentro do carro dizendo “comecem a fiscalizar e eu não precisarei estacionar aqui” e nunca mais me deram bilhete nenhum. Pelo menos, isso.

Na semana passada, eu postei uma mensagem com foto no Twitter, Hoje, pouco antes das onze da manhã, recebi esta resposta:

 Como eu disse, placa não fala. Placa não pede “senhor, não ocupe a vaga”. Placa não diz “tem gente com acesso prioritário para embarcar, a senhora por favor espere um pouco, pegue um de nossos outros onze elevadores ou uma escada rolante.” Placa não cumpre a lei municipal 8.056/2011, que aumenta o percentual das vagas reservadas para 5% de cada tipo, 10% do total do estacionamento. E que, em seu artigo 7º, § único, estabelece multa ao estabelecimento que não fiscalizar o uso indiscriminado das vagas.

Vai ter resposta dizendo que a lei também diz que o órgão municipal de trânsito precisa cumprir a sua parte, e isso é verdade, mas não é problema do estabelecimento. Ele tem a sua parte para honrar e não está fazendo isso. Está, sim, dizendo, implicitamente, que o dinheiro daqueles que têm dificuldades, sejam motoras ou decorrentes da idade, não lhe interessa. Os lojistas, que se calam diante disso, também não querem o dinheiro dessas pessoas. E, um dia, elas podem resolver escutar esse conselho e deixar de ir.

Vai ter resposta, de igual modo, no melhor estilo “estamos fazendo nossa parte”, como a que recebi hoje. Ou talvez eles simplesmente ignorem estas palavras, como ignoraram seus próprios funcionários quando estes informaram o uso por parte de funcionários de lojistas e dos próprios seguranças do shopping dos sanitários especiais para tomarem banho ou usarem de fumódromo. Em resposta a isso, vou começar a fotografar ditos sanitários todas as vezes em que for ao Salvador. Ou, ainda, como ignoraram a denúncia de um outro soteropolitano, cliente pagante, de que há baratas na praça de alimentação.

Com a palavra, o Salvador. Ah, esquece. O Salvador é indiferente.

Atualização (05/07/2012)

Logo após publicar este post, o Salvador Shopping me respondeu:

 A minha tréplica, que pode ser vista logo abaixo da mensagem deles, foi respondida hoje à noite por um usuário, dizendo achar injusto o meu comentário:

A princípio, eu contra-argumentei, explicando o raciocínio que pautou o texto e que a obrigação do Shopping garantir o direito dos beneficiários da legislação de acessibilidade decorre dela própria, a lei. Ele continuou com seu raciocínio, e eu com o meu:

Alguma coisa não batia, no entanto. Ele parou de responder, o que não é compatível com a defesa de uma opinião pessoal. Enfim. Comentei o assunto com Felipe Cepriano, no próprio twitter, perguntei o que ele achava, e… ele achou. O perfil do rapaz no LinkedIn. Olhem essa: o defensor anônimo do Salvador Shopping trabalha no departamento de marketing da empresa. Há quatro anos. Tá aqui:

Com essa, o Salvador deve estar tentando mudar minha ideia sobre sua equipe. No mínimo. Se eu tirar a boa vontade da equação, sobra uma tentativa de insultar a inteligência dos desavisados. Não basta pendurar cartazes bonitinhos, tem que arrotar o cumprimento de suas obrigações. Não basta dizer que vão analisar, tem que botar um perfil aparentemente idôneo pra tentar fazer os outros de idiotas. Francamente. Isso me lembra a vez em que me reuni com a responsável pelo atendimento ao cliente, o então chefe da segurança e o então responsável pelo estacionamento. Naquele dia, eu ouvi de uma pessoa que era paga para garantir o bom funcionamento do estacionamento que vagas para idosos e vagar para deficientes físicos são a mesma coisa. Lembro de ele ter mencionado que eram umas duzentas e poucas. Nem de perto os 10% que a lei municipal 8.056/2011 manda reservar, considerando as seis mil vagas que seu verbete na Wikipédia exibe. Sério, Salvador: eu abro espaço pra resposta. Eu até torço pra que vocês resolvam isso. Mas não tentem insultar minha inteligência. Fica feio é para vocês.

O bode

Nunca duvidei da capacidade destrutiva dos políticos. Tal qual o cavalo da Parada da Independência, deixam uma quantidade descomunal de merda por onde passam, enquanto fazem cara de “acima de qualquer suspeita”. E toda vez que alguém disser “agora, sim, é o fundo do poço”, pelo menos um deles – e, normalmente, mais de uma dúzia – vai achar um alçapão. É muito provável que Murphy tenha criado sua lei pensando em nosso Congresso Nacional.

E acontece que nossos zurrantes engravatados adoram um bode. Puro maniqueísmo de raciocínio raso, característico de uma forma de governo baseada na ignorância do eleitorado e na troca de favores, sempre existe a figura do bode expiatório, para afastar os olhares da imprensa e da opinião pública de suas traquinagens. Não, não das traquinagens. Deles. Peidam e apontam prum coitado com cara de tonto. E o infeliz leva a culpa.

O bode da vez é a importação. O pretexto, a proteção da indústria nacional. Não estou escrevendo estas linhas com pretensões de cientista político, economista, tributarista, nada disso. É apenas a observação de alguém que escapou das tentativas de lobotomia promovidas pelo Zoológico do Bial e o resto da grade de fim de semana da TV.

O raciocínio não é profundo. O governo aperta as importações com o pretexto (que diz não existir) de favorecer a indústria nacional. Mas não investe nessa mesma indústria. Ou, se investe, isso não está vindo a público. Note que, por indústria, eu não estou falando das grandes empresas do setor. Multinacionais e grandes conglomerados nacionais, que, de fato, recebem incentivos, ajudas, mimos, juros baixos e toda sorte de agradinhos. Redução de IPI para setor automotivo e quetais é a prova disso. Indústria nacional que precisa de incentivo é o pequeno industrial, sufocado em dívidas porque está competindo com os chineses e sendo sangrado pelo governo ao mesmo tempo. Competir faz parte do jogo deles. Alguns deles são até bastante versáteis, outros são empresas familiares que conseguiram tocar a vida ao longo dos anos, muitas nascidas num tempo em que educação superior não era essencial ao sucesso do empreendedor, mas também um tempo em que se ensinava a pensar. E isso era no ensino público. Hoje, o governo ensina a estender a mão e receber esmola.

O superávit primário do governo federal no ano de 2011, dados do Banco Central, foi de R$ 128,710 bilhões. Somente no mês de maio de 2012, o mesmo BC divulgou um superávit primário de R$ 2,653 bilhões (Não entendeu o conceito de superávit primário? Leia aqui [IPEA]). Sobre atividades de indústria e comércio incidem os seguintes tributos: IRPJ, COFINS, CSLL, PIS e ICMS. Sobre a indústria (que, lógico, repassa à ponta final), ainda incide o IPI. Por mais que os juros dos bancos tenham sido reduzidos, como é que um novilho pode empurrar a moenda que é pesada até para um boi adulto?

Em terra séria, os pequenos industriais e comerciantes recebem apoio real, estímulo, benefícios. São empurrados para frente. E os grandes ajudam a pagar parte da conta em seus tributos, porque igualdade é desigualar os desiguais. Aqui é tudo de ponta-cabeça, provavelmente porque os zurrantes engravatados são amigos dos grandes executivos, dirigentes das empresas que menos precisam de ajudas e estímulos – e as que mais recebem. Essa papagaiada de protecionismo tupiniquim não vai dar em nada de bom, porque o empresário que precisa de proteção para não quebrar e não desempregar aqueles que dependem de suas máquinas pra comer continua com um peso escorchante sobre os ombros, e pegar dinheiro emprestado para sobreviver à má fase é apenas trocar a corda de sua forca. Talvez, se esse empresário tivesse dinheiro para contribuir com a campanha de um dos zurrantes, a coisa fosse um pouco diferente. Mas, ainda que quisesse, fica um pouco difícil fazer algo além de tentar não afundar quando sua conta bancária é regularmente estuprada por gente que favorece os grandes no lugar dos pequenos, põe apadrinhados onde devia haver técnicos e problemas onde devia haver soluções. Aparentemente, tudo é possível em uma terra onde ruminantes vestem lã fria.

O cadeado e o ladrão

Você sabe que sua privacidade não tem mais tanto valor quando insiste em um serviço de correio gratuito que pertence a uma empresa que vive de indexar dados para torná-los rentáveis sob a foram de anúncios direcionáveis. Claro que eles alegam que não lhe entregam de bandeja para terceiros, mas, ainda assim, eles têm um esquema que, grosso modo, funciona como “olha, eu tenho aqui um cara que gasta uma grana com bichos, posso lhe vender espaço para anunciar seu pet shop pra ele.” O anunciante provavelmente não tem a menor ideia de quem é você, mas o duplo cego funciona para todos eles. Você não ganha nada, mas acha que sai no lucro porque o serviço deles é muito bom e permite achar coisas que, num cliente de correio normal, seria uma zona. E isso é apenas um exemplo. Tem mais por aí.

Privacidade, criptografia de dados pessoais, medidas de segurança. Assunto enfadonho pra quem tem necessidade estratégica, assunto ridículo e desnecessário para o usuário doméstico. Não, não é. Um pouco mais de atenção ao assunto cai bem, porque nós estamos deixando as empresas que vivem de data mining nos tratarem como os portugueses trataram os índios, com espelhinhos e miçangas. Estamos abaixando as calças pra essas empresas em troca de poder “dividir nossas vidas com outras pessoas.” Gente que, via de regra, é legal encontrar ao vivo, mas que é coisa da qual fugimos de maneira indelével, porque a distância do computador é reconfortante e poder dizer “oi” sem ter de olhar na cara da pessoa é muito cômodo. É o parente que mora longe e que nunca vem lhe visitar. E, exatamente por isso, você o adora. E termina expondo coisas que você deveria considerar itens de segurança a serem ocultados. Tem gente que chega ao absurdo de deixar dados postais, email, telefone, em perfil de rede social, aberto pra quem quiser ver. Tem gente que dá o celular pessoal numa conta de twitter aberta. No maior sentimento de “que que tem?”, sem dar conta da gravidade da situação.

As senhas são a maior prova disso. A despeito das recomendações de usar caracteres não alfanuméricos, alfanuméricos, maiúsculas e minúsculas, tudo misturado, o que é razoavelmente seguro, a maior parte das pessoas bota senha com nome de cachorro, aniversário do cônjuge e outras coisas que, bem, teria sido mais discreto se ele pegasse um megafone e anunciasse na feira. É importante ter em mente que você NÃO SABE quem, além de você, lê aquilo que entra e sai de seu correio, de seus perfis sociais, da sua vida digital. Até banco, que é criptografado e supostamente seguro – e boa sorte e uma luva de amianto a quem puser a mão no fogo pelo sistema bancário – está fortemente sujeito a esse tipo de invasão. Não vim bancar teórico da conspiração, eles acham que a gente precisa andar com escudo eletromagnético na cabeça porque o governo está lendo nossas mentes. Mas alguém está lendo o que você faz. E, em dado momento, isso será usado contra você.

Existem soluções para esse tipo de problema, e elas passam por criptografia avançada. Infelizmente, coisas como o PGP ou o Truecrypt não são exatamente palatáveis para o usuário médio. Eu diria que não são palatáveis, e pronto. São complicadas de implementar, requerem um cliente de email (PGP) ou aplicativo compatível e, no caso do Truecrypt, montar e desmontar o arquivo contendo o sistema de arquivos encriptado antes e após o uso. Não é prático. É fácil de fazer pra um geek, um nerd, um tecnômano, mas o cara que nunca passou da camada de interface de usuário de seu computador… pra ele, essas tecnologias são um mistério envolto num segredo. Quase um palavrão. Eu não vou comparar à interface gráfica do Linux, que, quinze anos depois do primeiro beta do KDE, ainda não me parece realmente pronta (ops, já era), mas a intuitividade pro leito, na proteção de seus dados, é inexistente.

Então, ontem saiu na Slashdot uma menção a uma empresa chamada Silent Circle, que promete começar a vender, em breve, um pacote de serviços a US$20/mês que oferece serviços criptografados de e-mail, VoIP, video conferência e mensagens de texto. Quem está por trás da empresa é o criador do PGP, Phil Zimmermann, junto com mais alguns ex-militares especializados em segurança de telecomunicações. E eles já anunciaram que sua base de servidores necessários para manter o serviço funcionando ficará no Canadá, que tem leis mais afeitas à preservação da privacidade. O serviço não deve ir ao ar antes de setembro próximo, mas se for algo transparente para o usuário, como eles dão a entender ao exibir um iPhone com a marca da empresa estampada na tela, pode ser aquilo que muita gente vem procurando. Claro que vai ter gente torta fazendo mau uso disso porque sempre tem. Sempre vai ter, e em qualquer área da vida. Mas poder manter nossas coisas privadas, bom… privadas, eu devo dizer que vinte dólares por mês é um preço honesto. E se incluir um gerador/gerenciador de senhas cross-platform com criptografia pesada, tanto melhor.

Enfim. Eu li por esses dias que privacidade é, hoje, um conceito de mídia, um commodity, uma ilusão, e, francamente, um monte de coisas mais que eu até preferi não reter na memória. Um festival de besteiras que daria urticárias no cadáver de Stanislaw Pont Preta. O que posso dizer é que existem interesses, óbvio, tentando nos fazer abrir mão de nossas liberdades civis, a começar pela privacidade. E que iniciativas com o Silent Circle mostram que a coisa não é como a mídia e meia dúzia de colunistas de idoneidade duvidosa vêm alardeando. Enquanto isso, já que não dá pra achar um caderninho de senhas criptografado decente e que seja cross-platform, pra funcionar no telefone e no computador, sem depender da nuvem pra isso, enquanto coisas desenhadas para guardar tudo o que você tem de dados, como o Evernote, oferecer um sistema de encriptação tão porco que só funciona no PC/Mac e nos móveis ele só decripta pra leitura (e recebi uma alegação de que o iOS, por exemplo, não permite encriptação, mesmo existindo programas que fazem precisamente isso), o jeito é confiar no velho bloquinho de papel bem guardado em sua gaveta. Eu vou aguardar o Silent Circle e vou testar. Depois digo o que achei.

O espresso do bolso quente

Com o perdão do trocadilho, o título deste post é apropriado. Este blog é um passatempo de alguém que gosta de falar de tecnologia, mas 80% da nerdaiada que eu conheço bebe café e, destes, pelo menos metade prefere espresso. Só que, como a maioria de nós não tem muita habilidade para preparar café usando máquina manual sem fazer uma sujeira medonha, alguns apelam para os sistemas fechados, de sachê ou cápsulas. Tem os que usam porque acham as cápsulas bonitinhas, mas a gente não está aqui para julgar ninguém. Finalmente, tem os que não moram sozinhos e o sistema fechado é a melhor forma de ter espresso em casa sem ter o pescoço espremido por conta da bagunça.

O problema de usar uma máquina de sistema fechado é que, quase sempre, ele é proprietário. Funciona como uma impressora: você compra uma máquina de determinado fabricante e só pode usar nela o suprimento compatível. Frequentemente, as máquinas são vendidas com algum nível de subsídio visando a adesão de novos consumidores e esperando receber esse investimento de volta no médio/longo prazo, sob a forma de venda de café. Óbvio que essa parte do subsídio não se aplica ao mercado brasileiro. Aqui, nenhuma máquina dessas é realmente acessível. Existem modelos abaixo de trezentos reais, mas são manuais com porta filtro. A maioria é, ao menos, competente, mas também requer um procedimento semelhante ao que o barista faz na cafeteria. Só que as empresas que vendem sistemas fechados andam abusando demais do nosso bolso, fazendo o preparo manual parecer interessante novamente.

Eu comprei, há pouco menos de um ano, uma máquina Nespresso Pixie. Ela pode ser encontrada sob fabricação de alguns fabricantes, como DeLonghi, Magimix ou Krups, mas são basicamente iguais, porque seguem a especificação estética da Nestlé. A minha é uma Krups, e difere, por exemplo, da DeLonghi apenas no desenho dos painéis laterais. Ela tem a vantagem de ser um modelo bem compacto e cabe, com um estojo de cápsulas grande, em cima de um microondas pequeno. Perfeita para quem não tem muito espaço. O que me deixou insatisfeito foi comprar suprimentos. A Nespresso pratica, atualmente, o preço de R$19 para uma caixa de dez cápsulas do Ristretto. Na Espanha, já com 7% de IVA (imposto sobre valor agregado) embutidos, custa 2,50 euros. Isto significa que, sem impostos, a mesma caixa custa 2,34 euros, ou aproximados R$5,90 segundo o câmbio do dia. Trabalhando com os 2,50 praticados lá fora, em um cálculo de leigo, cheguei ao seguinte: Sendo que o imposto de importação é de 60%, e o ICMS de São Paulo é de 18%, uma caixa que custa 2,50 euros ou 6,30 reais deveria ser vendida a R$12,29, pouco mais que 2/3 do preço praticado pela Nestlé no Brasil. Se computado o ICMS interestadual, ela poderia me custar mais 7%, ou por volta de R$13,50. Quando questionados, representantes da empresa sempre alegam que o preço elevado se deve aos encargos tributários. Na dúvida, culpe o governo. Você pode nem saber porque está batendo, mas ele sabe porque está apanhando.

Brasileiro é rico. Cada vez que entro em contato com gente de fora, é a impressão que eles passam sobre nós. Isto é, quando sabem a realidade dos preços praticados pelas empresas que também operam em seus países natais. Um carro pode chegar a custar, aqui, o dobro do que custa em um país da União Européia, e isso não quer dizer que lá isso seja barato. Mas o assunto agora é o café nosso de cada dia, e a Nestlé me levando a crer que vale a pena economizar um pouco mais e ser roubado por outra multinacional, como a Philips, detentora da marca Saeco. Cuja superautomática XSmall custa, no Brasil, uns 1600 reais, enquanto, lá fora, pode ser comprada por menos de 400 euros. O dobro do preço, mas a economia na manutenção pode compensar.

Se a Nestlé quiser a palavra, eu faço um post com a explicação deles para os preços estilo automóvel alemão premium, “sou caro pra ser exclusivo”. Não é que eu queira realmente fazer isso, mas é direito de resposta. Agora, que explicação eles têm pra oferecer por tratar o consumidor brasileiro como panaca, tentando colocar panos quentes com “frete gratuito” (para um produto que tem menos de 60g por caixa!) ou oferecer “descontos” (aspas em nome da ironia) na compra casada de caixas de madeira ou potes de acrílico para as cápsulas, isso foge à minha imaginação. Gostaria muito é que eles honrassem as próprias calças e expusessem sua tabela de recolhimento de tributos para provar que não estão cometendo usura.

Informações estas que deverão ser entregues pelo coelho da páscoa cujos ovos eles embalam e vendem todos os anos, desde a quaresma. Só pode.

Os tentáculos do Google

Na semana passada, a exemplo de outros serviços online, o valor de mercado do Evernote atingiu a cifra de um bilhão de dólares. Hoje, o Google anunciou o Drive, seu serviço de armazenamento online. Embora as duas coisas aparentem não ter relação, não é bem assim que a banda toca. E o mesmo motivo dessa relação ser algo indelével é o que a torna preocupante.

Se você é profissional liberal, criador de conteúdo, analista de dados, ou simplesmente trabalha diretamente com computadores e/ou internet, você muito provavelmente nem nega que depende de computadores e, mais provavelmente ainda, surta quando fica sem conexão com a rede. A onda de serviços “na nuvem”, os discos virtuais, o Office 365, Google Docs, tudo isso está alçando o computador à condição de terminal burro de luxo. Não, eu nunca usei terminais burros, mas conheço gente velha, do tempo em que trote cruel era embaralhar os cartões perfurados dos calouros. Acredito que o equivalente disso seria trocar a senha do GMail do infeliz quando ele esquecesse o navegador logado. Apagar arquivos se o disco virtual oferecer serviço de recuperar backup também dá um bom susto. Não, você não leu isso aqui. Se feder, é problema seu.

Qual é, afinal, a relação do Drive, um disco virtual, com o Evernote? O Google. Se estivéssemos falando do Instagram, seria o Facebook. Empresas que vivem de vender informação. Tanto o Google quanto o Facebook usam seus dados e hábitos para lhe oferecer coisas – e sabe mais lá o que. O Google, quando unificou seus termos de serviço e a política de privacidade, definiu:

Informações que partilhamos
Não partilhamos informações pessoais com empresas, organizações e indivíduos externos à Google, exceto nas seguintes circunstâncias:
(…)
  • Para processamento externo
    Fornecemos informações pessoais às nossas filiais ou outras empresas ou pessoas fidedignas para efeitos de processamento, com base nas nossas instruções e em conformidade com a nossa Política de Privacidade e quaisquer outras medidas de segurança e confidencialidade aplicáveis.

Baseado, claro, nos critérios deles.

A política de privacidade mais recente do Evernote, em vigor desde novembro de 2010, dá à empresa o direito de coletar e usar (dentro do escopo da atividade deles) alguns dados seus, mas nenhum dos seus dados. Ou seja, eles não podem usar nada do que você guarda em seus cadernos para o que quer que seja. E isso é importante, porque pode ter conteúdo sensível ali, trabalho em andamento, esse tipo de coisa. Como o Google Drive, o Evernote (na versão paga) oferece serviço de reconhecimento de caracteres em imagens e PDFs contendo imagens, de modo que você pode pesquisar por palavra-chave. Mas seu trabalho não vira isca de anunciante, e isso é importante.

Não se trata de demonizar o Google. É uma empresa, não uma caridade, e é o negócio deles. Use ou não use, é problema seu. Mas é importante ter isso em mente antes de colocar algo sensível ali dentro. Pelo menos, use um disco virtual encriptado, como o TrueCrypt, se não houver jeito. Bom, isso depois do Drive aceitar qualquer arquivo, porque, diferente dos concorrentes (Dropbox, Skydrive, Sugarsync, etc), ele só aceita certos tipos. São muitos, mas só aqueles, possivelmente os que o Google está preparado para processar e escrutinar atrás de algo que lhes valha. O famoso serviço de indexação da empresa é fantástico, sim, mas veja isso como a malha de satélites GPS: o número de satélites que o governo dos EUA tornou disponível para uso público não é, nem de perto, o que está disponível para uso militar.

Aí, fica pra cada um pensar. Se o Evernote fosse comprado por uma empresa que vive dos seus dados, você ainda o usaria? Eu uso, acho fantástico e faço propaganda de graça deles apenas porque o serviço é bom, mas, com a notícia da Veja sobre seu valor de mercado, se ele for comprado por um Google ou um Facebook da vida, apago minha conta no mesmo dia. Claro, os termos de serviço não mudariam, não de saída. Mas o Skype era gratis, agora é “gratis”. O dono influencia, mesmo que diga que não. E eu não deixaria meu trabalho na mão de uma empresa cujo modelo de negócio envolve espiar os dados dos clientes para lhes vender coisas.