Os tentáculos do Google

Na semana passada, a exemplo de outros serviços online, o valor de mercado do Evernote atingiu a cifra de um bilhão de dólares. Hoje, o Google anunciou o Drive, seu serviço de armazenamento online. Embora as duas coisas aparentem não ter relação, não é bem assim que a banda toca. E o mesmo motivo dessa relação ser algo indelével é o que a torna preocupante.

Se você é profissional liberal, criador de conteúdo, analista de dados, ou simplesmente trabalha diretamente com computadores e/ou internet, você muito provavelmente nem nega que depende de computadores e, mais provavelmente ainda, surta quando fica sem conexão com a rede. A onda de serviços “na nuvem”, os discos virtuais, o Office 365, Google Docs, tudo isso está alçando o computador à condição de terminal burro de luxo. Não, eu nunca usei terminais burros, mas conheço gente velha, do tempo em que trote cruel era embaralhar os cartões perfurados dos calouros. Acredito que o equivalente disso seria trocar a senha do GMail do infeliz quando ele esquecesse o navegador logado. Apagar arquivos se o disco virtual oferecer serviço de recuperar backup também dá um bom susto. Não, você não leu isso aqui. Se feder, é problema seu.

Qual é, afinal, a relação do Drive, um disco virtual, com o Evernote? O Google. Se estivéssemos falando do Instagram, seria o Facebook. Empresas que vivem de vender informação. Tanto o Google quanto o Facebook usam seus dados e hábitos para lhe oferecer coisas – e sabe mais lá o que. O Google, quando unificou seus termos de serviço e a política de privacidade, definiu:

Informações que partilhamos
Não partilhamos informações pessoais com empresas, organizações e indivíduos externos à Google, exceto nas seguintes circunstâncias:
(…)
  • Para processamento externo
    Fornecemos informações pessoais às nossas filiais ou outras empresas ou pessoas fidedignas para efeitos de processamento, com base nas nossas instruções e em conformidade com a nossa Política de Privacidade e quaisquer outras medidas de segurança e confidencialidade aplicáveis.

Baseado, claro, nos critérios deles.

A política de privacidade mais recente do Evernote, em vigor desde novembro de 2010, dá à empresa o direito de coletar e usar (dentro do escopo da atividade deles) alguns dados seus, mas nenhum dos seus dados. Ou seja, eles não podem usar nada do que você guarda em seus cadernos para o que quer que seja. E isso é importante, porque pode ter conteúdo sensível ali, trabalho em andamento, esse tipo de coisa. Como o Google Drive, o Evernote (na versão paga) oferece serviço de reconhecimento de caracteres em imagens e PDFs contendo imagens, de modo que você pode pesquisar por palavra-chave. Mas seu trabalho não vira isca de anunciante, e isso é importante.

Não se trata de demonizar o Google. É uma empresa, não uma caridade, e é o negócio deles. Use ou não use, é problema seu. Mas é importante ter isso em mente antes de colocar algo sensível ali dentro. Pelo menos, use um disco virtual encriptado, como o TrueCrypt, se não houver jeito. Bom, isso depois do Drive aceitar qualquer arquivo, porque, diferente dos concorrentes (Dropbox, Skydrive, Sugarsync, etc), ele só aceita certos tipos. São muitos, mas só aqueles, possivelmente os que o Google está preparado para processar e escrutinar atrás de algo que lhes valha. O famoso serviço de indexação da empresa é fantástico, sim, mas veja isso como a malha de satélites GPS: o número de satélites que o governo dos EUA tornou disponível para uso público não é, nem de perto, o que está disponível para uso militar.

Aí, fica pra cada um pensar. Se o Evernote fosse comprado por uma empresa que vive dos seus dados, você ainda o usaria? Eu uso, acho fantástico e faço propaganda de graça deles apenas porque o serviço é bom, mas, com a notícia da Veja sobre seu valor de mercado, se ele for comprado por um Google ou um Facebook da vida, apago minha conta no mesmo dia. Claro, os termos de serviço não mudariam, não de saída. Mas o Skype era gratis, agora é “gratis”. O dono influencia, mesmo que diga que não. E eu não deixaria meu trabalho na mão de uma empresa cujo modelo de negócio envolve espiar os dados dos clientes para lhes vender coisas.

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