O bode

Nunca duvidei da capacidade destrutiva dos políticos. Tal qual o cavalo da Parada da Independência, deixam uma quantidade descomunal de merda por onde passam, enquanto fazem cara de “acima de qualquer suspeita”. E toda vez que alguém disser “agora, sim, é o fundo do poço”, pelo menos um deles – e, normalmente, mais de uma dúzia – vai achar um alçapão. É muito provável que Murphy tenha criado sua lei pensando em nosso Congresso Nacional.

E acontece que nossos zurrantes engravatados adoram um bode. Puro maniqueísmo de raciocínio raso, característico de uma forma de governo baseada na ignorância do eleitorado e na troca de favores, sempre existe a figura do bode expiatório, para afastar os olhares da imprensa e da opinião pública de suas traquinagens. Não, não das traquinagens. Deles. Peidam e apontam prum coitado com cara de tonto. E o infeliz leva a culpa.

O bode da vez é a importação. O pretexto, a proteção da indústria nacional. Não estou escrevendo estas linhas com pretensões de cientista político, economista, tributarista, nada disso. É apenas a observação de alguém que escapou das tentativas de lobotomia promovidas pelo Zoológico do Bial e o resto da grade de fim de semana da TV.

O raciocínio não é profundo. O governo aperta as importações com o pretexto (que diz não existir) de favorecer a indústria nacional. Mas não investe nessa mesma indústria. Ou, se investe, isso não está vindo a público. Note que, por indústria, eu não estou falando das grandes empresas do setor. Multinacionais e grandes conglomerados nacionais, que, de fato, recebem incentivos, ajudas, mimos, juros baixos e toda sorte de agradinhos. Redução de IPI para setor automotivo e quetais é a prova disso. Indústria nacional que precisa de incentivo é o pequeno industrial, sufocado em dívidas porque está competindo com os chineses e sendo sangrado pelo governo ao mesmo tempo. Competir faz parte do jogo deles. Alguns deles são até bastante versáteis, outros são empresas familiares que conseguiram tocar a vida ao longo dos anos, muitas nascidas num tempo em que educação superior não era essencial ao sucesso do empreendedor, mas também um tempo em que se ensinava a pensar. E isso era no ensino público. Hoje, o governo ensina a estender a mão e receber esmola.

O superávit primário do governo federal no ano de 2011, dados do Banco Central, foi de R$ 128,710 bilhões. Somente no mês de maio de 2012, o mesmo BC divulgou um superávit primário de R$ 2,653 bilhões (Não entendeu o conceito de superávit primário? Leia aqui [IPEA]). Sobre atividades de indústria e comércio incidem os seguintes tributos: IRPJ, COFINS, CSLL, PIS e ICMS. Sobre a indústria (que, lógico, repassa à ponta final), ainda incide o IPI. Por mais que os juros dos bancos tenham sido reduzidos, como é que um novilho pode empurrar a moenda que é pesada até para um boi adulto?

Em terra séria, os pequenos industriais e comerciantes recebem apoio real, estímulo, benefícios. São empurrados para frente. E os grandes ajudam a pagar parte da conta em seus tributos, porque igualdade é desigualar os desiguais. Aqui é tudo de ponta-cabeça, provavelmente porque os zurrantes engravatados são amigos dos grandes executivos, dirigentes das empresas que menos precisam de ajudas e estímulos – e as que mais recebem. Essa papagaiada de protecionismo tupiniquim não vai dar em nada de bom, porque o empresário que precisa de proteção para não quebrar e não desempregar aqueles que dependem de suas máquinas pra comer continua com um peso escorchante sobre os ombros, e pegar dinheiro emprestado para sobreviver à má fase é apenas trocar a corda de sua forca. Talvez, se esse empresário tivesse dinheiro para contribuir com a campanha de um dos zurrantes, a coisa fosse um pouco diferente. Mas, ainda que quisesse, fica um pouco difícil fazer algo além de tentar não afundar quando sua conta bancária é regularmente estuprada por gente que favorece os grandes no lugar dos pequenos, põe apadrinhados onde devia haver técnicos e problemas onde devia haver soluções. Aparentemente, tudo é possível em uma terra onde ruminantes vestem lã fria.

Uma ideia sobre “O bode

  1. Fernando , realmente este é um país diferente , a anos temos reclamado das importações , que no caso do ramo da minha cada vez menor empresa , são primeiramente a China, depois India e paquistão. Só agora o governo toma uma decisão sobre as importações pq o setor automotivo começou a sofrer grande competição dos carros chineses.
    O governo Dilma , reduziu os encargos sobre a folha mas aumentou sobre o faturamento e para a pequena empresa que tem poucos funcionários acabou aumentando a cara tributária e não reduzindo.
    Além do mais , tente um pequeno empresário conseguir um empréstimo do BNDES , é uma tarefa impossível , pq além do lobi , eles só se interessam em empresta para os grandes , nunca para os pequenos.
    No ramo de produção de meias a grande maioria das empresas estão indo mal e sem perspectivas demelhoras pq simplesmente não há como competir com os importados que como muitos pensam erroneamente não são produtos ruins multo pelo contrario , são bons e muito mas .muit mais barato que os nossos.

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