“O Salvador é INdiferente”

Quando a legislação de acessibilidade foi criada, sua função original sempre me pareceu a de suprir lacunas do art. 5º da Constituição Federal, no sentido de desigualar os desiguais para que todos tenham os mesmos direitos. Considerando isso, definiu-se que, em locais públicos ou privados abertos ao público, próximo ao acesso, devem ser demarcadas vagas para pessoas idosas e portadores de necessidades especiais. Isso é um pouco mais amplo que simplesmente pessoas com deficiência, atingindo qualquer pessoa a quem seja sofrido caminhar longas distâncias sem a ajuda de acessórios, como alguém que quebrou um pé, sofreu uma cirurgia ortopédica ou de outra natureza, uma pessoa transportando criança de colo. Não precisa ler a lei, o bom senso, quero crer, é suficiente.

Em Salvador, entretanto, as coisas funcionam de ponta-cabeça.  Não vou me alongar falando dos absurdos que a administração municipal pratica, como um meio-fio em frente ao Shopping Itaigara, separando duas pistas e cortando ao meio uma travessia de pedestres. Quase todo dia, idosos penam para atravessar aquele trecho. Vou me concentrar nos estabelecimentos privados com acesso público. Particularmente, vou falar um pouco sobre o Salvador Shopping, um dos empreendimentos do grupo JCPM em Salvador.

Antes de prosseguir, um esclarecimento: embora meu veículo esteja adaptado e devidamente identificado, não tenho nenhuma limitação física severa, nada além de uma coluna estropeada que dói de vez em quando e nunca estaciono em vagas reservadas se não estiver transportando titular do direito de uso delas. Todas as situações narradas a seguir, portanto, representam transtornos reais às pessoas que têm seus direitos violados, eu sou meramente um relator.

Inaugurado em maio de 2007 sem nenhuma cadeira de rodas disponível e alegando que isso foi devido ao atraso do fornecedor (mas sem a presença de espírito de alugar algumas para tapar o buraco), o Salvador Shopping tem um bom capital humano nas camadas inferiores de sua administração. Em cinco anos de operação, não me lembro de ter sido atendido com qualquer ponta de maus modos por algum dos funcionários fardados. Dito isto, nada, absolutamente nada do que é solicitado ou sugerido é sequer pensado pelas camadas gerenciais. Ou há uma absurda falta de respeito para com os clientes, que são aqueles que viabilizam o empreendimento que pagam seus salários, já que nenhuma das providências, nem as que representam cumprimento de lei federal ou municipal, foram adotadas até agora.

Minto. Uma vez, há algumas semanas, o Shopping começou uma campanha (falaremos de novo nela mais adiante) com cartazes de modelos saídos de alguma Getty Images da vida portando placas com textos pedindo respeito à preferência que é direito de idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Uma delas estava coberta por uma samambaia. Eu avisei, a samambaia saiu de lá. Minto de novo, fui eu quem livrou a vista da placa. Eles moveram o vaso de lugar depois disso.

Só que placa não fala. E, ainda que o pessoal do Salvador Shopping seja muito educado, não foi treinado para reagir à absurda falta de educação do ser humano. Ninguém quer ter o pé pisado, mas pisar não lhe dói a consciência. Nessa lógica, as poucas vezes em que vi um funcionário efetivamente tomar uma atitude, agiu de movimento próprio, e morrendo de medo de alguém ir lá na administração fazer queixa. Eu diria, pelas atitudes dos clientes e omissões da direção do estabelecimento, que seu medo era justificado. Nunca mais o vi por lá.

O Salvador passou por algumas reformas desde que abriu as portas. Duas menores, na zona de caixas automáticos que matou algumas vagas reservadas (que foram marcadas na fila em frente por alguém que, definitivamente, não estava ligando muito para o que foi pago para fazer) e na montagem do espaço onde funciona o SAC, na G2. Que também matou vagas e gerou um dos maiores ornitorrincos da vida prática que já vi: vagas reservadas num corredor sem saída e marcadas a 45º.

A terceira e maior reforma foi a ampliação, prevista desde a inauguração e que simplesmente ignorou a necessidade de mais elevadores que fossem até o terceiro piso. É um pouco difícil digerir uma decisão dessas quando ela só poderia vir acompanhada de uma política estrita de respeito ao acesso prioritário, não de meia dúzia de placas coladas com fita adesiva nas paredes. A mensagem vai chegando do horizonte, “não venham, não venham não, porque aqui não tem lugar para vocês.”

Claro que não tem. Uma solução, há muito tempo, foi a de fechar algumas (não todas) vagas reservadas, e só as para necessidades especiais (idosos, não), com correntes. Ignoro o motivo, mas a prática caiu em desuso. O fato é que você chega, num fim de semana ou mesmo no meio dela, e precisa ouvir que não tem vaga “porque o povo não respeita”. A segurança do estacionamento é contratada para que? Vigilância patrimonial apenas? Frequentemente, eu preciso estacionar em um lugar onde não é vaga demarcada, junto ao elevador, porque simplesmente não há uma vaga acessível livre. Até as zebras viram vagas, porque, na demarcação das novas, alguém teve a brilhante ideia de colocar duas zebras juntas. É, eu sei, acabei de falar nisso ali em cima, mas o negócio é absurdo. Uma barra de ferro entre elas resolveria o problema, mas ninguém pensa nisso. Canso de fotografar veículos estacionados irregularmente. E de nunca ver a administração tomar qualquer providência além de colocar um papel na minha porta dizendo que estacionei em um local irregular. Botei um papel por dentro do carro dizendo “comecem a fiscalizar e eu não precisarei estacionar aqui” e nunca mais me deram bilhete nenhum. Pelo menos, isso.

Na semana passada, eu postei uma mensagem com foto no Twitter, Hoje, pouco antes das onze da manhã, recebi esta resposta:

 Como eu disse, placa não fala. Placa não pede “senhor, não ocupe a vaga”. Placa não diz “tem gente com acesso prioritário para embarcar, a senhora por favor espere um pouco, pegue um de nossos outros onze elevadores ou uma escada rolante.” Placa não cumpre a lei municipal 8.056/2011, que aumenta o percentual das vagas reservadas para 5% de cada tipo, 10% do total do estacionamento. E que, em seu artigo 7º, § único, estabelece multa ao estabelecimento que não fiscalizar o uso indiscriminado das vagas.

Vai ter resposta dizendo que a lei também diz que o órgão municipal de trânsito precisa cumprir a sua parte, e isso é verdade, mas não é problema do estabelecimento. Ele tem a sua parte para honrar e não está fazendo isso. Está, sim, dizendo, implicitamente, que o dinheiro daqueles que têm dificuldades, sejam motoras ou decorrentes da idade, não lhe interessa. Os lojistas, que se calam diante disso, também não querem o dinheiro dessas pessoas. E, um dia, elas podem resolver escutar esse conselho e deixar de ir.

Vai ter resposta, de igual modo, no melhor estilo “estamos fazendo nossa parte”, como a que recebi hoje. Ou talvez eles simplesmente ignorem estas palavras, como ignoraram seus próprios funcionários quando estes informaram o uso por parte de funcionários de lojistas e dos próprios seguranças do shopping dos sanitários especiais para tomarem banho ou usarem de fumódromo. Em resposta a isso, vou começar a fotografar ditos sanitários todas as vezes em que for ao Salvador. Ou, ainda, como ignoraram a denúncia de um outro soteropolitano, cliente pagante, de que há baratas na praça de alimentação.

Com a palavra, o Salvador. Ah, esquece. O Salvador é indiferente.

Atualização (05/07/2012)

Logo após publicar este post, o Salvador Shopping me respondeu:

 A minha tréplica, que pode ser vista logo abaixo da mensagem deles, foi respondida hoje à noite por um usuário, dizendo achar injusto o meu comentário:

A princípio, eu contra-argumentei, explicando o raciocínio que pautou o texto e que a obrigação do Shopping garantir o direito dos beneficiários da legislação de acessibilidade decorre dela própria, a lei. Ele continuou com seu raciocínio, e eu com o meu:

Alguma coisa não batia, no entanto. Ele parou de responder, o que não é compatível com a defesa de uma opinião pessoal. Enfim. Comentei o assunto com Felipe Cepriano, no próprio twitter, perguntei o que ele achava, e… ele achou. O perfil do rapaz no LinkedIn. Olhem essa: o defensor anônimo do Salvador Shopping trabalha no departamento de marketing da empresa. Há quatro anos. Tá aqui:

Com essa, o Salvador deve estar tentando mudar minha ideia sobre sua equipe. No mínimo. Se eu tirar a boa vontade da equação, sobra uma tentativa de insultar a inteligência dos desavisados. Não basta pendurar cartazes bonitinhos, tem que arrotar o cumprimento de suas obrigações. Não basta dizer que vão analisar, tem que botar um perfil aparentemente idôneo pra tentar fazer os outros de idiotas. Francamente. Isso me lembra a vez em que me reuni com a responsável pelo atendimento ao cliente, o então chefe da segurança e o então responsável pelo estacionamento. Naquele dia, eu ouvi de uma pessoa que era paga para garantir o bom funcionamento do estacionamento que vagas para idosos e vagar para deficientes físicos são a mesma coisa. Lembro de ele ter mencionado que eram umas duzentas e poucas. Nem de perto os 10% que a lei municipal 8.056/2011 manda reservar, considerando as seis mil vagas que seu verbete na Wikipédia exibe. Sério, Salvador: eu abro espaço pra resposta. Eu até torço pra que vocês resolvam isso. Mas não tentem insultar minha inteligência. Fica feio é para vocês.

Uma ideia sobre ““O Salvador é INdiferente”

  1. Só falta o cara ter criado a conta no twitter só para te responder. Nao é mais fácil, ao invés de bater boca com um cliente , que está correto, o Shopping simplesmente botar uns seguranças para circularem e advirtirem os clientes que estacionam irregularmente? E em caso de desobidência basta a mesma segurança chamar a Polícia para aplicar uma multa?
    É tão difícil isso?

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